É a vida!

Rubens Pileggi Sá

Tudo começou, como muita coisa começa, em arte, como uma brincadeira. Um material que ia (vem) chegando pelo computador, assim como quem não quer nada, sob o título: “Vendo frases Feitas”. Bobagens, lugares-comuns. A primeira, de junho, era um simples “Viva São João”. Quem estava remetendo tal texto era o artista Edson Barrus, o “cão mulato”, inventor de um conceito de arte para a criação do “vira-latas transgênico”. Que fez de sua casa, no Rio de Janeiro, o espaço Rés-do-Chão, para experimentação de trabalhos radicais, lúdicos e poéticos. Que transforma seu lugar de moradia em abrigo para outros artistas, transformando a hospedagem em ação de arte, também.
Pois bem, depois de muita frase feita, agora já com outros participantes, recebo uma imagem de uma foto tirada em uma via urbana, com uma faixa, onde se lê: “É a vida!”. E assim, coisas absolutamente clichês, são capazes ainda de nos remeter a significados que transformam nossos pensamentos sobre aquilo que parecia não ter mais nada a dizer. Um novo olhar sobre a mesmice pode mudar nossas percepções. Maktub.
(...)
O que podemos ressaltar dessa questão que envolve as mais corriqueiras das situações, é de que conceitos tão arraigados quanto a postura do artista como criador original, como gênio inspirado, cai por terra. De que a propriedade intelectual, a arte enquanto objeto único, o trabalho enquanto mercadoria, se transforma, agora, em um jogo, cuja prática, pode recair na mais óbvia das operações. Não só fazendo o cotidiano como matéria da arte, mas a arte como possibilidade do cotidiano. Afinal a vida imita arte (ou é o contrário?) e vivemos uma época saturada de imagens e frases e coisas que estão ao nosso dispor sem precisar novas matérias e materiais que vão poluir ainda mais o planeta. Deslocar é preciso! As colagens em artes plásticas ou em música utilizam há tempos tais recursos, ao juntarem elementos aparentemente díspares em novas configurações.
Isso, que aparentemente é apenas uma blague, uma ironia da situação cotidiana, um recurso artístico inconseqüente, é o que de mais forte pode estar acontecendo em termos de mudança de conceito sobre a função da arte em nossa sociedade, porque, se aquele passante, que vai do trabalho para casa e da casa para o trabalho estiver atento ao lixo jogado nas ruas e aos sinais em que se acostumou a atravessar – não como algo que é um simples lugar-comum, mas sim algo pleno de potencialidades – não só a arte estará contribuindo para que este cidadão perceba o mundo à sua volta, mas com que arte e vida possam tornar matéria de uma mesma dimensão.

Julho de 2003

texto extraído da coluna "Alfabeto Visual" de Rubens Pileggi Sá.



  Vendo Frases Feitas / Grota Funda, 2003