Tudo começou, como muita coisa começa, em arte, como uma brincadeira.
Um material que ia (vem) chegando pelo computador, assim como quem não
quer nada, sob o título: “Vendo frases Feitas”. Bobagens,
lugares-comuns. A primeira, de junho, era um simples “Viva São
João”. Quem estava remetendo tal texto era o artista Edson Barrus,
o “cão mulato”, inventor de um conceito de arte para a criação
do “vira-latas transgênico”. Que fez de sua casa, no Rio de
Janeiro, o espaço Rés-do-Chão, para experimentação
de trabalhos radicais, lúdicos e poéticos. Que transforma seu
lugar de moradia em abrigo para outros artistas, transformando a hospedagem
em ação de arte, também.
Pois bem, depois de muita frase feita, agora já com outros participantes,
recebo uma imagem de uma foto tirada em uma via urbana, com uma faixa, onde
se lê: “É a vida!”. E assim, coisas absolutamente clichês,
são capazes ainda de nos remeter a significados que transformam nossos
pensamentos sobre aquilo que parecia não ter mais nada a dizer. Um novo
olhar sobre a mesmice pode mudar nossas percepções. Maktub.
(...)
O que podemos ressaltar dessa questão que envolve as mais corriqueiras
das situações, é de que conceitos tão arraigados
quanto a postura do artista como criador original, como gênio inspirado,
cai por terra. De que a propriedade intelectual, a arte enquanto objeto único,
o trabalho enquanto mercadoria, se transforma, agora, em um jogo, cuja prática,
pode recair na mais óbvia das operações. Não só
fazendo o cotidiano como matéria da arte, mas a arte como possibilidade
do cotidiano. Afinal a vida imita arte (ou é o contrário?) e vivemos
uma época saturada de imagens e frases e coisas que estão ao nosso
dispor sem precisar novas matérias e materiais que vão poluir
ainda mais o planeta. Deslocar é preciso! As colagens em artes plásticas
ou em música utilizam há tempos tais recursos, ao juntarem elementos
aparentemente díspares em novas configurações.
Isso, que aparentemente é apenas uma blague, uma ironia da situação
cotidiana, um recurso artístico inconseqüente, é o que de
mais forte pode estar acontecendo em termos de mudança de conceito sobre
a função da arte em nossa sociedade, porque, se aquele passante,
que vai do trabalho para casa e da casa para o trabalho estiver atento ao lixo
jogado nas ruas e aos sinais em que se acostumou a atravessar – não
como algo que é um simples lugar-comum, mas sim algo pleno de potencialidades
– não só a arte estará contribuindo para que este
cidadão perceba o mundo à sua volta, mas com que arte e vida possam
tornar matéria de uma mesma dimensão.
Julho de 2003
texto extraído da coluna "Alfabeto Visual" de Rubens Pileggi Sá.

Vendo
Frases Feitas / Grota Funda, 2003